INCLUSÃO SOCIAL: EM TERESINA PROFISSIONAIS DA SAÚDE ESTÃO SENDO TREINADOS PARA ATENDIMENTO EM LIBRAS

Imagine-se surdo e que acabou de sofrer um acidente de motocicleta. Para piorar, você é alérgico a algum medicamento muito comum em casos de urgência. E agora? Agora, desde o curso idealizado pela professora de libras Patrícia Lima, você pode ficar tranquilo. Isso porque os profissionais da saúde do município de Teresina estão sendo capacitados para promover um atendimento inclusivo aos pacientes assistidos pela rede pública de saúde.

O projeto Libras na Saúde vem para sanar uma demanda antiga da sociedade brasileira. Embora libras seja considerada a segunda língua oficial do Brasil desde 2002, através da Lei Nº 10.436/2002, muitas pessoas acabam deixando esta competência um pouco de lado. Mas para aqueles profissionais que lidam diretamente com o público, este tipo de comunicação é fundamental.

Patrícia é idealizadora do projeto Libras na Saúde (Crédito: Leo Vilani)
Patrícia é a idealizadora do projeto Libras na Saúde (Crédito: Leonardo Vilari)

Estes são os gestos de emergência, fundamentais até para confortar o paciente. “Imagine como esta pessoa se sente ao saber que o médico que lhe atende consegue pedir para ele ficar calmo, em libras?”, questiona Patrícia Lima, professora de Libras que já formou duas turmas de profissionais da saúde com a competência, sendo uma no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Teresina e no Hospital e no Instituto de Doenças Tropicais Natan Portela (Idnp).

A ideia é que o curso seja estendido a todos os profissionais da saúde de Teresina, através de plataformas online e capacitações. Sabe-se que pelo menos 5% do quadro destes profissionais deve saber Libras, sob os ditames da Lei Nº 5.626/2005. No entanto, na prática, nem sempre essa legislação é seguida à risca.

Patrícia é a idealizadora do projeto Libras na Saúde (Crédito: Leonardo Vilari)
Patrícia é a idealizadora do projeto Libras na Saúde (Crédito: Leonardo Vilari)

O Libras na Saúde busca promover um melhor acesso à saúde e a promoção da inclusão por meio de uma melhor comunicação com pacientes surdos. Desta forma é possível um melhor acolhimento de urgências, eliminando as dificuldades de comunicação. A falta do conhecimento em Libras por um socorrista implica o não conhecimento de informações essenciais a um perfeito atendimento, como o uso de medicamentos controlados, doenças crônicas, alergias ou mesmo um mal-estar repentino.

Capacitação inclusiva: uma excelente ideia

A iniciativa voluntária de Patrícia Marques, servidora do Samu, começou em agosto de 2017 na unidade de Teresina. Mas a demanda e a falta de profissionais com o domínio do idioma fez com que o projeto fosse expandido. Tanto que serão implantados os mini-cursos “Libras na Emergência”, no Conselho Regional de Enfermagem (Coren-PI), e o Libras na Obstetrícia: Atendimento à Gestante Surda”.

Patrícia sentiu a necessidade de criar o curso a partir de uma experiência profissional. “Comecei a atuar na docência e tive uma aluna surda. É interessante porque a libras já é uma segunda língua no Brasil, mas só quando temos o contato com alguém surdo que nos atentamos para isso, não temos uma iniciativa. Então fiquei pensando: como o profissional do Samu faz para atender o surdo em um momento de urgência? Então no curso os profissionais da saúde aprendem sinais específicos para se comunicar em situações assim”, explica.

Patrícia é a idealizadora do projeto Libras na Saúde (Crédito: Leonardo Vilari)
(Crédito: Leonardo Vilari)

A adesão por parte dos profissionais foi imediata. “O que nos deixa mais felizes é que esses médicos, enfermeiras e membros da equipe estão buscando, por conta própria, cursos e leituras para melhorar o atendimento a essas pessoas. Justamente para conseguir ter uma fluência. Todas as pessoas deveriam aprender libras. Nem sempre dá tempo de chamar um intérprete, como no caso de uma urgência”, acrescenta a idealizadora do projeto.

O ensino de Libras torna-se essencial. “As perguntas necessárias podem custar a própria vida do paciente. Principalmente se o profissional não conseguir se comunicar com ele. Então desenvolvemos esse projeto, que logo recebeu o apoio da direção e do núcleo. Nós tentamos sensibilizar os outros profissionais de toda a comunidade para aprender libras”, pontua a professora.

Patrícia Marques ressalta que, um dia, até quem não é surdo pode precisar usar libras em causa própria. “Imagine um paciente em UTI, que não pode falar. Se ele soubesse libras, ele poderia se comunicar sem maiores agravos. Ou mesmo uma cirurgia de tireóide, que em alguns casos não pode falar durante um tempo”, orienta.

 O silêncio se transforma em cuidado

A médica Lílian Gomes afirma que é obrigação dos profissionais de saúde oferecer um atendimento de excelência universal a qualquer pessoa que precise do Samu. Não importa se ela seja surda ou ouvinte. “Para que a gente possa conseguir salvar a vida de todos, é imprescindível a comunicação”, enfatiza a médica Lílian Gomes.

 (Crédito: Leonardo Vilari)
(Crédito: Leonardo Vilari)

A enfermeira Tânia Furtado também considera que a perfeita comunicação entre a equipe e o paciente é imprescindível. “Para além do atendimento de urgência, ao adquirir libras nós estamos incluindo a pessoa. Isso facilita a relação no momento que ele, o surdo, mais precisa. Se essa comunicação for barrada, não vamos conseguir fazer um atendimento de qualidade, que é nosso maior objetivo. Ele precisa dizer o que sente, se toma medicamento controlado, se tem alergia…”, explica.

Tânia ressalta os atendimentos realizados após a capacitação. “Depois que aprendemos libras, já tivemos atendimentos para surdos em blitzen e urgência. Esse curso foi muito bem vindo e a gente espera que todo o município e, porque não, o Estado também possa incluir essa capacitação”, avalia.

Projeto deve se estender a toda a saúde municipal

A mudança é perceptível para a equipe. “Antes de fazer o curso, era muito difícil. Eu nunca conseguia entender uma pessoa que não fala. Mas depois do curso ficou mais fácil, tudo ficou melhor. E é gratificante saber que vamos poder ajudar”, considera João da Cruz, técnico de enfermagem.

“Diante da necessidade, ninguém sabia o que fazer”, desabafa Francine Amorim, diretora-geral do Samu. “Mas a Patrícia trouxe o projeto, nós abraçamos a causa e capacitamos os funcionários. Já estamos na segunda turma. Depois da capacitação, a equipe já fez um atendimento totalmente em libras. Podemos entender, na prática, o benefício”, completa a gestora.

 (Crédito: Leonardo Vilari)
(Crédito: Leonardo Vilari)

E a ideia é expandir o projeto. “Nossa intenção não é deixar o projeto apenas no Samu. Queremos estender a toda a saúde municipal. Vamos fazer cursos de 40 horas, com 30 horas online e 10 horas práticas aqui no Samu. Vamos disponibilizar a todo o quadro profissional através de uma plataforma de ensino-aprendizagem, principalmente em casos de urgência e emergência. Estamos sensibilizando todos os funcionários”, afirma Francine.

“Ser atendido em libras é uma forma de respeito”

Se por um lado os profissionais festejam a existência do curso que facilita o trabalho realizado por eles, por outro, quem será beneficiado com a facilidade na comunicação, comemora em dobro. Esse é o caso de Iago Pedro, que tem surdez.

Ele é acadêmico de libras da Universidade Federal do Piauí (Ufpi) e conta que se sente respeitado e acolhido ao saber da existência do Libras Na Saúde. “É um alívio bem grande saber que eles vão poder me entender. É bom saber que posso ser atendido como qualquer outra pessoa. Saber que o Samu disponibiliza esse serviço em libras é muito bom”.

 (Crédito: Raissa Morais)
(Crédito: Raissa Morais)

Iago afirma que as dificuldades são muitas, mas que aos poucos os surdos conseguem os espaços que merecem. “Eu passo muitas dificuldades no meu cotidiano por conta da questão da comunicação. Então, nesse momento de urgência, é muito cômodo para mim perceber que eles conseguem fazer o atendimento em libras. Eles sabem o que estou sentido de verdade, é confortante. É uma forma de respeito, também, para mim, enquanto pessoa surda”, finaliza.

FONTE: MN



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